Tesouros
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Nossa Senhora do Cenáculo

Jerusalém, uma fundação de sonho

Para Madre Marie Aimée Lautier, a Congregação do Cenáculo tinha que estar presente em Jerusalém, no coração do lugar que lhe deu o nome. Durante seu longo mandato (1877-1926), ela nunca deixou de procurar uma maneira de se estabelecer no Cenáculo. Naquela época, o Cenáculo, ou “quarto superior” onde Jesus havia celebrado a Última Ceia e o Pentecostes, estava sob controle otomano e havia sido convertido em uma mesquita porque se pensava que abrigava a tumba do Rei Davi.

Durante décadas, as tentativas foram feitas uma após a outra, à distância, mas com o apoio de informações precisas fornecidas por contatos que conheciam bem a área e suas dificuldades. Como era impossível adquirir o Cenáculo diretamente, a estratégia era comprar terras vizinhas, em virtude de um direito otomano de preferência.

Mapa do Monte Sião [final do século 19 e início do século 20]. O Cenáculo está no canto superior esquerdo. Fonte: colado por Abbé Léon Couderc no livro de G. Longhaye SJ, La Société de N.-D. du Cénacle. MM, S 3A6(2).

As primeiras tentativas (1879-1892)

Várias propostas foram apresentadas, mas a concorrência era acirrada, principalmente com os franciscanos, antigos proprietários que haviam sido roubados e estavam determinados a recuperar suas propriedades.

Em 1880, a Princesa de La Tour d’Auvergne ofereceu à Congregação o Credo, o local onde se diz que Cristo ensinou o “Pai Nosso”.

Em 1889, Monseigneur de La Passardière, antigo bispo auxiliar de Lyon, recomendou a compra da Dormição, um local que a tradição associa à vida de Maria após a Ascensão e próximo ao Cenáculo. Essa avenida foi explorada até a fundação de Nova York. Finalmente, os beneditinos construíram um mosteiro no local.

Aceleração sob Pio XI (1922-1928)

A esperança renasceu na década de 1920, com o apoio do Papa Pio XI, que era próximo à Congregação, e do Patriarca Latino de Jerusalém, Dom Barlassina, que era bem conhecido em Turim. As negociações eram tão delicadas em 1922 que foi adotada uma linguagem codificada na correspondência. O Papa foi consultado durante uma audiência. Ao receber a informação, o Santo Padre escreveu: “Não é apropriado envolver-se nesse assunto”.

Código usado em 1922 em correspondências. Fonte: MM, 12G 10.
” Fazenda: Cenáculo de Jerusalém; Maria: nossa Sociedade; Damiano: Santo Padre; mil (sacos de trigo): milhão; 500 sacos de trigo: 500.000; Ernestine: Conde Lombardo; Joseph: R[evérende] M[ère] Buisson [ecônomo geral]; Paul: Beneditinos; John: [congregação do] Santíssimo Sacramento; Maurice: Pe. Maurice Gisler; Raphaël: P….
Fui ver Damiano, ele acha que a fazenda está em boas condições. Combinamos que, se Marie desse 500 sacas de trigo, Ernestine prometeria fornecer a mesma quantidade.

Resposta do Papa enviada em 23 de setembro de 1922. Fonte: MM, 12G 10.
Uma nova oportunidade surgiu em 1925, mas a falta de jeito das irmãs fez com que a prospecção fracassasse. Duvidando do senso prático do Patriarca que lhes ofereceu a terra, e apesar de seu pedido de discrição, as irmãs seguiram outro conselho. Suas ações logo foram relatadas a ele. Profundamente ofendido, ele encerrou abruptamente as negociações.

No limiar dos sonhos. Entre a Prudência e a Providência (1928)

A oportunidade mais concreta surgiu em 1928, quando uma benfeitora se ofereceu para doar seu convento recém-construído no Monte Sion, bem ao lado do Cenáculo. Pio XI incentivou fortemente o projeto.
Entretanto, a nova Superiora Geral, Madre Majoux, era mais pragmática do que sua antecessora. As casas na França mal haviam se recuperado do exílio imposto pela política do governo, e duas casas estavam em construção (em Roma e Paris). As irmãs teriam que ser providas para todas as casas em um momento em que a saúde delas era frágil e a fundação da casa brasileira estava em andamento há apenas alguns meses.
Esse período de discernimento exasperou a benfeitora que, impaciente, mudou sua oferta: a doação foi transformada em um legado em seu testamento com uma anuidade. Diante dessas novas condições – que equivaliam a um aluguel – e das dúvidas sobre a natureza do possível apostolado – ser meras “guardiãs” das instalações sem o apostolado próprio da Congregação – Madre Majoux recusou definitivamente, vendo nisso um sinal da Providência.

O eco de um sonho

Foi uma grande decepção para as irmãs, que esperavam fervorosamente por essa fundação. No entanto, a ideia nunca morreu. Dez anos depois, nasceu o projeto de construir uma réplica do Cenáculo no jardim da casa em Roma (em Priscilla). Mas, mais uma vez, o destino interveio: a Segunda Guerra Mundial pôs fim a esse último eco do grande sonho de Jerusalém.

Apelo por doações para o “fac-símile” do Cenáculo a ser construído em Roma [1935-1936].

Fonte: Arquivos Provinciais da Itália, arquivo “Fac simile Cenacolo Gerusalemme”.

Medidas enviadas por Dom Barlassina, Patriarca de Jerusalém [1936].

Fonte: Arquivos Provinciais da Itália, arquivo “Fac simile Cenacolo Gerusalemme”.